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Meu filho adotivo se apega mais a um de nós: por que isso acontece?

Tem uma cena que se repete em muitos lares adotivos, e quase sempre chega até mim carregada de culpa.

A criança corre para um dos pais e recusa o colo do outro. Aceita ser trocada, alimentada e adormecida por um, e chora quando é o outro que se aproxima. Um dos dois vira o porto seguro. O outro fica olhando de fora, se perguntando em silêncio: “será que ela não gosta de mim?”.

Se você está vivendo isso, respire. Não é rejeição, e não é fracasso. É uma etapa, e ela tem explicação.

Por que a criança escolhe um porto primeiro

Uma criança que foi adotada já viveu perdas antes de chegar até você. Ela aprendeu, do jeito mais difícil, que vínculos podem se romper. Então, quando chega a uma nova família, o cérebro dela faz algo muito inteligente para sobreviver: elege uma figura principal de segurança e se agarra a ela com todas as forças.

Não é uma escolha racional, e raramente tem a ver com quem ama mais ou quem é melhor. Costuma ter a ver com quem lembra, mesmo que inconscientemente, um cuidado anterior. Com quem passou mais horas nos primeiros dias. Com o tom de voz, o cheiro, o ritmo. Às vezes com algo que nem os pais conseguem nomear.

Construir um vínculo seguro já é um trabalho delicado, como escrevi em É normal eu ter medo de não criar vínculo com meu filho adotivo?. Quando esse vínculo aparece desigual entre os dois pais, a dor de quem ficou de fora é real, e merece cuidado.

O que a preferência costuma esconder

Aqui vai uma ideia que costuma virar a chave para muitas famílias: muitas vezes, é justamente com o adulto que a criança sente mais seguro que ela deposita o que tem de mais difícil.

É com o porto seguro que vêm as birras mais intensas, os testes de limite, as explosões de raiva. Não porque ela goste menos, mas porque, pela primeira vez, existe alguém que ela confia que não vai embora, mesmo diante do pior comportamento dela. A criança está testando a solidez daquele laço.

Escrevi sobre esses dois movimentos em Por que meu filho adotivo testa tanto os limites? e em Meu filho adotivo sente muita raiva: o que ele está tentando me dizer?. Vale ler junto, porque o vínculo desigual quase sempre caminha ao lado deles.

Para quem ficou de fora: o que fazer

Se você é o pai ou a mãe que está sendo preterido neste momento, a tarefa não é forçar aproximação. É estar presente sem cobrar.

  • Não dispute. A criança não precisa escolher entre vocês. Ela precisa descobrir, no tempo dela, que tem dois portos, e não um.
  • Ofereça o cotidiano, não a intensidade. O vínculo se constrói no banho, na comida, na história antes de dormir, na repetição. É a presença constante, e não o gesto grandioso, que cria segurança.
  • Não leve para o lado pessoal na frente dela. Seu rosto magoado comunica mais do que você imagina. A criança precisa te sentir inteiro e disponível, não ferido por causa dela.
  • Cuide da parceria. O pai preferido pode, com naturalidade, ir passando pequenas tarefas para o outro. “Hoje quem te dá banho é o papai.” Sem drama, como quem abre uma porta.

Para quem é o porto: divida o peso

Ser a figura principal é bonito e é exaustivo. Você carrega as demandas, as crises e a vigilância o tempo todo. Deixar o outro entrar não é abrir mão do seu lugar, é proteger a criança de depender de uma pessoa só, e proteger vocês dois do esgotamento.

Isso muda com o tempo

O vínculo desigual costuma ser uma fase da adaptação, não um retrato definitivo da família. À medida que a criança sente que aquele lar é seguro de verdade, ela relaxa a vigilância e começa a distribuir o afeto. A preferência se dilui. Os dois portos passam a existir.

Mas isso pede paciência, combinação entre o casal e, muitas vezes, um olhar de fora que ajude a entender o que aquela criança específica está comunicando. Cada história de chegada é única, como comentei em Quando meu filho adotivo chegar, como será?.

Se a sua família está passando por isso e a dor de um dos lados está pesando, não precisa atravessar sozinho. Conheça o acompanhamento para famílias adotivas ou fale comigo no WhatsApp. Vínculo se constrói, e dá para construir com apoio.

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